Hastings Dictionary of the Bible
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ESPINHO NA CARNE, DE PAULO. Em duas passagens, 2 Coríntios 12:7–10 e Gálatas 4:14–15, Paulo alude a alguma circunstância ou aflição que dificultou seu ministério; mas, como ele não especifica o que era, chamando-o apenas de um "prego na carne", surgiram numerosas conjecturas. Esta é uma das questões em que, como observa Dean Stanley, "a obscuridade para nós se deve precisamente ao fato de que era óbvia para os contemporâneos." As explicações propostas dividem-se em três classes: Provações espirituais — quer tentações sensuais, como é a opinião favorita de escritores católicos romanos, quer tentações à incredulidade, dúvidas decorrentes da memória de seu passado pecaminoso, como propuseram Lutero, Calvino e outros reformadores. Calamidades externas — quer suas perseguições e sofrimentos, quer os opositores judaizantes, como pensavam Crisóstomo e os Padres gregos. Mas alguns comentaristas antigos, medievais e modernos, insatisfeitos com essas explicações por não resolverem a dificuldade, favoreceram — alguma afecção corporal. Quase todo tipo de doença — pleurisia, cálculo renal, defeito de eloquência, hipocondria, cefaleia, otalgia, epilepsia, oftalmia aguda — foi sugerido e defendido pelos padres e escolásticos. A tradição sustenta que o "espinho" era algum tipo de dor na cabeça. Segundo a opinião moderna, a escolha gira entre epilepsia e oftalmia aguda. A favor da epilepsia está a vida que Paulo levou: seus êxtases, seu entusiasmo seguido de depressão, seu enorme desgaste nervoso; isso poderia abalar seu organismo. Contra tal noção está a atividade física de Paulo, sua mente equilibrada, seu autocontrole e confiança. Nenhuma objeção semelhante se aplica à oftalmia aguda — doença comum no Oriente. Ela pode ter sido causada, no caso dele, pela luz brilhante que incidiu sobre seus olhos na conversão, e agravada, ou ao menos não diminuída, pelas peregrinações e vida laboriosa. Há muitas indicações que favorecem essa interpretação. Paulo diz que os gálatas teriam arrancado seus olhos e dado a ele, Gálatas 4:15; a palavra que ele usa em 2 Coríntios 12:7 — "prego", não "espinho" —, como diz Canon Farrar, "expressaria mais apropriadamente a dor incisiva da oftalmia, como se uma lasca lhe fosse enfiada no olho." A desfiguração que ela causa teria tornado Paulo objeto de desprezo e aversão que ele descreve ter sofrido (Gálatas 4:14; 2 Coríntios 10:10). Seu fracasso em reconhecer o sumo sacerdote (Atos 23:5); seu temor de ser deixado sozinho, mostrado por alusões que faz à provação (1 Tessalonicenses 3:1; 2 Timóteo 4:16); sua expressão: "Vede com que letras grandes vos escrevo de próprio punho" (Gálatas 6:11); e o uso de um amanuense para a maior parte de suas cartas (cf. Romanos 16:22) — todos são fatos que apontam na mesma direção. Aceitando essa interpretação, que luz ela lança sobre a vida de Paulo! Eleva nossa concepção do seu heroísmo e aumenta o respeito por sua obra. Vemos que ele não podia mover-se ou escrever como desejava, era dependente de outros; e, não obstante seu sofrimento e perseguições, sua visão turvada e seu trabalho interrompido, lutou e trabalhou para seu Mestre até a morte.